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Fortes emoções Portuguesas |
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António Loulé, vice-presidente do centro cultural do Real Gabinete Português de Leitura |
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Marcelo Henriques de Brito, diretor para expansão do Elos Clube Internacional |
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Amanhã, 10 de junho, quando se comemora o Dia de Portugal, Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas, vale lembrar o profundo e condenado amor de Dona Inês de Castro e Dom Pedro I - não confundir com o Imperador D.Pedro I no Brasil (que foi D.Pedro IV em Portugal). Os fatos reais de paixão e poder com final trágico foram relatados por Camões no Canto III de "Os Lusíadas", além de outros autores, despertando até hoje fortes emoções na alma do povo português.
Praticamente 200 anos após a vitória de Afonso Henriques contra os mouros na Batalha de Ourique em julho de 1139 - quando Portugal iniciou um processo que, nas décadas seguintes, iria assegurar a sua independência do reino de León e Castela - chega a Portugal D.Inês de Castro. Esta nobre da Galícia acompanhava a fidalga castelhana D.Constança, esposa imposta a D.Pedro I.
Acontece que D.Pedro I se apaixonou pela bela Inês de Castro, que era sua prima em segundo grau. Ambos iniciaram uma relação extraconjugal, contrariando os interesses do pai e da nobreza portuguesa. Após a morte de D.Constança em 1349, D.Pedro I quis oficializar seu relacionamento com D. Inês. Por desaprovar o desejo do seu filho, o rei português D.Afonso IV inicialmente baniu D.Inês da corte e, ao constatar que a relação não terminava, mandou matá-la em 1355. O sangue de D.Inês transformou a cor das águas da Quinta das Lágrimas em Coimbra, segundo a lenda.
Com a morte de D.Afonso IV em 1357, D.Pedro I, que viria ser reputado como "o justiceiro" por seu equânime senso de justiça, assume o trono e, decidido a vingar a morte da amada, manda arrancar os corações dos assassinos. Além disso, D.Pedro I informou que haveria casado de forma secreta com D.Inês, para então promover o beija-mão e o coroamento ao cadáver daquela que depois de morta foi Rainha. Este fato controverso e comovente gerou a conhecida expressão em Portugal "Inês é morta", que é mencionada para designar uma situação que não se pode reverter.
Para louvar o amor eterno, D.Pedro I mandou erguer para o casal dois túmulos suntuosos, um em frente ao outro, no Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. Lá estão até hoje os restos mortais dos protagonistas de uma estória real, cheia de símbolos e com múltiplas interpretações por conter: amor, adultério, conflito entre pai e filho, vingança, interferência do Estado na vida privada de seus dirigentes, preservação da soberania nacional e luta pela felicidade diante de obstáculos.
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Independência de Portugal |
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A história demonstrou ser infundado supor que a amizade de D.Pedro I com os irmãos de D.Inês abalaria a independência de Portugal por envolvimento do país em conflitos na corte castelhana. Tampouco ocorreu uma guerra civil pela posse do trono português entre D.Fernando I, filho legítimo de D.Pedro I com D.Constança, e os filhos que D.Pedro I teve com D.Inês. De fato, após a morte de D.Pedro I em 1367, D.Fernando I reinou até morrer em 1383, sem entretanto deixar um descendente homem. A possibilidade da filha Beatriz de D.Fernando I casar-se com D.João I de Castela, o que levaria Portugal a perder sua independência, fomentou até 1385 a Revolução de Avis, liderada pelo Mestre de Avis - filho ilegítimo de D.Pedro I com Teresa Lourenço - que viria a ser D.João I. Após derrotar o exército castelhano na Batalha de Aljubarrota, ele assegurou a independência de Portugal e viabilizou a formação de um grande império a partir do século XV.
Ao longo da história, os portugueses tiveram outras vivências tão profundas, que no idioma há palavras traduzidas com extrema dificuldade, como "saudade", aflorada após o sacrifício de D.Inês de Castro, ou ainda "desenrascanço", muito conhecida em Portugal, significando a habilidade para resolver eficazmente um problema numa situação adversa, sem temer a criação de soluções inusitadas, ao não dispor de meios adequados ou tradicionais. Tal atitude é muito importante para descobertas e para negociações que gerem soluções construtivas, às quais não se chega só com a razão. As fortes emoções lusitanas afloram também num belo fado e sobretudo numa refeição farta e deliciosa que reúne a família e os amigos. E assim, fortes embates e emoções complexas estiveram sempre presentes no processo de construção de uma identidade nacional.
Um fortalecido e engrandecido espírito lusitano possibilitou grandes realizações, embora mais lágrimas também. "Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador tem de passar além da dor", como disse Fernando Pessoa num poema sobre o mar desbravado por Portugal.
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Este artigo foi originalmente publicado na seção Opinião do Jornal do Commercio, edição de 09/06/2006, página A-15.
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