Artigo de Marcelo Henriques de Brito "
O Rotary promove felicidade",publicado na Revista BRASIL ROTÁRIO, janeiro de 2006, páginas 10 a 12
Como a organização e seus membros participam das trocas que ocorrem no cotidiano das pessoas.
Inúmeros relatos comprovam que Rotary gera grandes benefícios para a humanidade. Entre eles, está a promoção da felicidade. Ao examinar as circunstâncias que geram felicidade, é possível ressaltar a contribuição da nossa organização para tornar as pessoas felizes. É interessante observar também que o direito à "busca da felicidade" está registrado na Declaração de Independência dos EUA, país onde em 1905 foi fundado o Rotary com o propósito inicial de incentivar o companheirismo e as relações profissionais.
Enquanto as expectativas de uma pessoa estiverem em sintonia com as condições do ambiente social no qual está inserida, ela se sentirá feliz. A duração de sua felicidade, entretanto, dependerá do resultado das trocas estabelecidas, muitas delas imprescindíveis, uma vez que ninguém se supre de tudo de que necessita.
Embora poucas, existem trocas indispensáveis que nem sempre envolvem dinheiro: o carinho da família, as relações sinceras de amizade e a paz interior, por exemplo. O dinheiro tampouco apaga o profundo sentimento de saudade de pessoas, de lugares ou de um tempo que passou e não existe mais. É, contudo, necessário reconhecer que o dinheiro não é dispensável, pois facilita as trocas na vida quotidiana. Uma certa riqueza material e financeira aumenta a independência na tomada de decisões, e estimula o empreendedorismo e novos investimentos, que devem visar o aumento de renda, emprego e ocupação para a população, contribuindo para o bem-estar social.
Quem, voluntária ou involuntariamente, deixa de estabelecer trocas, terá dificuldades para conquistar o que deseja ou mesmo para conservar o que de útil acumulou. O isolamento impede a realização de trocas que contribuem para a felicidade. Como cantou Tom Jobim, "É impossível ser feliz sozinho". Uma vez que a repetição contínua de trocas com benefícios recíprocos reforça a felicidade, deve ser de interesse geral que todos alcancem constantemente uma situação melhor ou mais prazerosa, após a realização de trocas, incluindo as transações de compra e venda.
Se um lado fosse, constantemente, favorecido em detrimento do outro, o comércio não prosperaria. O avanço das atividades comerciais, com suas vantagens, permitiu o desenvolvimento da nossa complexa civilização: por um lado, rejeitando o uso da violência física com saques, roubos e seqüestros; por outro lado, valorizando a resolução de conflitos, tanto por meio de um sistema jurídico e policial, sério e eficaz, quanto por intermédio da divulgação de valores éticos.
Legalidade e ética
A legislação pode impor uma forma de conduta ao estabelecer o que é lícito ou ilícito, noções objetivas e estritamente jurídicas. O que é considerado ilícito está sujeito a sanções definidas em lei. Os princípios éticos são, contudo, mais sólidos; não ficam desatualizados por mudanças na sociedade e, portanto, são mais abrangentes do que os princípios jurídicos.
Agir com ética significa muito mais do que agir em sintonia com os costumes aceitos e adotados pela sociedade, respeitando os limites acordados. Quem age dentro de uma ética, pensa nos outros e age com coerência, o que restringe a possibilidade de comportamentos imprevisíveis que podem causar danos a todos. Um exemplo simples de atitude ética é ter a predisposição de não ser extravagante num restaurante, se, a priori, for estabelecido que a conta será dividida por todos os comensais. Tal atitude ética evita constrangimentos que desestimulam novos encontros desse grupo de pessoas. Por outro lado, procurar desculpas para tentar justificar o não cumprimento do que foi prometido profissionalmente é uma atitude antiética que prejudica o progresso das atividades empresariais.
Como desenvolver a sensibilidade de agir com ética é menos óbvio do que parece, o Rotary divulga a Prova Quádrupla que provoca uma reflexão sobre pensamentos, afirmações e atitudes: "É a verdade? É justo para todos os interessados? Criará boa vontade e melhores amizades? Será benéfico para todos os interessados?". Tem-se assim uma espécie de check list para agir ou tomar uma decisão com ética e frear impulsos egoístas, o que é uma importante contribuição do Rotary para assegurar a coesão social, como registrei no livro "Crise e Prosperidade Comercial, Financeira e Política" (Probatus Publicações).
Acredito que a grande maioria das pessoas tem interesse em agir com ética, respeito às leis e apoio à paz, pois a alternativa da exclusão social - com o esfacelamento da sociedade - é prejudicial a todos. Vale lembrar, aliás, que a Prova Quádrupla foi concebida por Herbert J. Taylor, do Rotary Club de Chicago, em 1912, quando sua empresa passava por dificuldades durante uma época de depressão econômica nos EUA, com o aumento da informalidade e da ilegalidade.
No entanto, não bastaria o Rotary divulgar teoricamente a bela idéia de ética nas relações sociais, se também não contribuísse para incentivar exemplos de que é possível conviver com pessoas comprometidas em estabelecer trocas favoráveis a todos. E mais: sabendo-se que muitas trocas importantes acontecem, espontaneamente, a partir do simples contato pessoal, é igualmente uma relevante contribuição do Rotary para a sociedade reunir em milhares de clubes, dispersos pelo mundo, profissionais de variadas classificações profissionais e múltiplos focos de interesses, o que amplia, em muito, as possibilidades de ocorrerem trocas benéficas de bens, serviços e idéias.
Trocas no Rotary
O compromisso rotário de comparecer aos encontros semanais reforça uma predisposição contínua para estabelecer trocas ao menos pelo companheirismo, seguindo os princípios da Prova Quádrupla, enquanto seu cumprimento é acompanhado pelo grupo social que reprova quem age de forma egoísta. É igualmente importante a realização dos numerosos projetos rotários que assistem a população carente nas áreas de alimentação, saúde e desenvolvimento humano; melhoram a infra-estrutura e apóiam realizações da comunidade local; contribuem para a formação continuada de estudantes, professores e lideranças; e fomentam o bom relacionamento, a concórdia e a paz nas relações internacionais. Assim, diversos programas rotários combatem, de forma duradoura, a miséria - em todas as suas formas - pelo auto-desenvolvimento de pessoas íntegras, as quais têm um compromisso com iniciativas que promovam o desenvolvimento social.
Embora desenvolva ações grandiosas, como a campanha para a erradicação da poliomielite no mundo, o Rotary deve ser - e, de fato, é - apreciado por diversas atividades, as quais, embora com menor visibilidade, ajudam, de forma persistente e sistemática, inúmeras pessoas que ficam felizes e gratas. Ao não necessariamente se preocupar em alocar esforços, tempo e dinheiro para induzir a sociedade a ter uma impressão positiva sobre sua atuação, o Rotary personifica o lema "Dar de si antes de pensar em si".
Entretanto, mesmo quando o Rotary não lidera a execução de certos projetos notáveis com forte alcance social, são vários os rotarianos que prestam assessoria ou congregam aqueles que se encarregarão da execução. É "fazer fazer" - ou "fazer com que façam" - como sugere Rotary International, o que só é possível graças à enorme rede de relacionamento promovida pelo Rotary em cidades e países. Se houvesse uma percepção de irrelevância do Rotary para a sociedade, não participariam de atividades rotárias eminentes personalidades da iniciativa privada e do setor público, como associados ou parceiros, alguns como palestrantes, que nos encontros semanais difundem conhecimentos úteis das mais diversas áreas, com aplicabilidade na vida diária.
A rede de relacionamentos rotários já colaborou também para aliviar o desconforto de várias pessoas capazes que atravessaram momentos de desemprego, insucessos empresariais ou falta de desafios profissionais com a aposentadoria. Essas situações poderiam eventualmente comprometer o bem-estar pessoal e o equilíbrio familiar dessas pessoas. Todavia, a manutenção do relacionamento com outros rotarianos bem-sucedidos pôde gerar novas idéias de negócios ou proporcionar novas oportunidades profissionais em organizações que prezam valores éticos nas suas atividades. Assim, o Rotary já contribuiu para manter ocupadas e socialmente integradas personalidades que, apesar do currículo respeitável e da conduta ilibada, circunstancialmente estiveram fora do processo produtivo. É justo que o Rotary contribua para deixar seus sócios felizes, além de promover a felicidade na sociedade.
Enfim: o Rotary cresceu muito desde sua criação em 1905, ao unir seus associados e a sociedade em torno da importância de haver um ambiente de democracia política e liberdade econômica que fomente trocas em quantidade e variedade, observando sólidos princípios éticos. E um ambiente que favorece transações que privilegiam a verdade, a justiça, a boa vontade, a amizade e o benefício de todos é, certamente, um lugar mais rico sob todos os aspectos e, conseqüentemente, mais feliz.
O autor é Administrador e Engenheiro, Ph.D., rotariano desde 1995, inicialmente no Rotary Club São Paulo e atualmente sócio do Rotary Club Rio de Janeiro, RJ (D.4570), diretor da Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ), sócio da PROBATUS Consultoria e autor do livro "Crise e Prosperidade Comercial, Financeira e Política", probatus@probatus.com.br.
Na publicação impressa, o artigo contou com uma bela ilustração de Rodrigo Furtado (www.rodrigofurtado.da.ru; cel. 96497343)