Em 11 de março de 2011, o Japão foi abalado por um terrível terremoto seguido de um tsunami. Um mesmo tipo de tragédia já ocorrera em Portugal em 1 de novembro de 1755. Naquele dia, morreram inúmeras pessoas e houve muita destruição em Lisboa, capital do então grande Império Português. Naquela época ainda se lembrava bem o quanto fora difícil restaurar a Independência de Portugal em 1640. Assim, os portugueses sabiam que era necessária uma sólida união para se manterem independentes do grande vizinho espanhol de forma a terem um território para compartilhar vivências e conviver com costumes e leis próprias que refletiam os seus valores e a sua história. Deve-se atribuir àquela coesão social associada à decidida liderança de Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marques de Pombal, ministro do rei D. José I, o êxito do impressionante trabalho de reconstrução e transformação em Portugal, apesar dos inúmeros escombros e da experiência traumática.
Tal como os portugueses no século XVIII, os japoneses com sua cultura milenar irão se empenhar na árdua tarefa de reconstrução. Todavia, um fato notável que diferencia a tragédia portuguesa da catástrofe japonesa aflora em um exemplo de outro vínculo luso-nipônico relatado pelo britânico Martin Page no livro "A Primeira Aldeia Global: como Portugal Mudou o Mundo": os portugueses "ensinaram-lhes [aos japoneses] a técnica de fabricação de armas e construíram edificações capazes de aguentar tanto ataques de artilharia como terremotos. Na cidade de Nagasaki, estas estruturas edificadas pelos portugueses sobreviveram durante séculos, tendo, em 1945, resistido muito melhor à bomba atômica do que as de Hiroshima".
Tal afirmação fomenta uma reflexão sobre a capacidade humana de lidar com a destruição acarretada por bombas atômicas e acidentes nucleares. Se, por um lado, já tem sido possível reduzir os estragos devidos a abalos sísmicos, por outro lado, não é nada fácil, ou sequer é possível, conter os danos devido à radiação nuclear, o que já ocorre no Japão devido às avarias na Usina de Fukushima, apesar de todos os esforços criativos e heróicos reportados pela imprensa. A incontrolável liberação de radiação aquece o debate sobre o uso da energia nuclear e as alternativas viáveis.
Em todo caso, fatos históricos demonstram que uma nação se ergue após um evento adverso pela formação do povo e pelo seu comprometimento no trabalho. Logo, a valorização do iene em seguida à catástrofe japonesa decorreu muito das características do povo favorecer o sucesso de investimentos na reconstrução do país. Tal pressuposição de êxito fomenta a repatriação de capital e a atração de recursos estrangeiros para o Japão.
A decorrente valorização do iene beneficiaria os países que desejam exportar para o Japão, além de dificultar as exportações japonesas, o que prejudica o país. Por isso, houve a adoção de medidas para evitar uma valorização indesejável do iene, assim como podem até vir a ser implementados procedimentos protecionistas e de intervencionismo governamental no Japão. Neste contexto, cabe lembrar o polêmico lema que teria guiado a ação do Marquês de Pombal diante da tragédia portuguesa: "enterrar os mortos, cuidar dos vivos e fechar os portos".
Adicionalmente, é instigante avaliar os desdobramentos do relacionamento do Japão com a China, que pode tirar muito proveito da reconstrução no Japão. Além dos países ocidentais estarem ocupados com sérios conflitos mundiais, notadamente no mundo árabe, deve-se ter em mente que a China desenvolveu um imponente parque industrial com mão-de-obra qualificada, tem uma indiscutível vantagem logística pela proximidade geográfica e acumulou uma extraordinária reserva de dólares ao manter de forma estratégica durante vários anos o yuan artificialmente muito desvalorizado.
Neste cenário, se encaixa a mensagem de Adam Smith no livro "A Riqueza das Nações" (Livro 4, Capítulo III): "A riqueza de uma nação vizinha, entretanto, embora perigosa na guerra e na política, é certamente vantajosa no comércio. Em estado de hostilidade, a riqueza pode viabilizar nossos inimigos a manterem esquadras e exércitos superiores aos nossos; mas em estado de paz e de comércio deve também viabilizar que eles estabeleçam conosco trocas de valores mais elevados e proporcionar um mercado melhor, tanto para a produção imediata de nossas próprias indústrias como para o que for comprado com esta produção".