Na quarta-feira, 1 de dezembro de 2010, foram comemorados 370 anos de independência de Portugal. O artigo "Renovação Lusitana" publicado na edição nacional do Jornal do Commercio de quarta-feira, 1 de dezembro de 2010, página A-19, lembrou o fato. Se Portugal não tivesse se tornado independente de Espanha em 1640, talvez Pernambuco não faria parte do Brasil (os holandeses não teriam sido expulsos), talvez hoje no Brasil se falaria um outro idioma como o tupi-guarani ou o espanhol (inclusive lembrando o que ocorreu em Olivença na Península Ibérica) e possivelmente o Brasil seria fragmentado como é a América Espanhola.


RENOVAÇÃO LUSITANA

Marcelo Henriques de Brito (*)


Em primeiro de dezembro de 1640 terminou a chamada União Ibérica, que começara devido à falta de descendentes portugueses do rei D.Sebastião, que morrera na Batalha de Alcácer Quibir. Ocorre que a forte identidade portuguesa perpassando gerações e o enfraquecimento da Espanha pela Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) fizeram com que Portugal conseguisse restaurar sua independência após 60 anos de dominação espanhola. Apesar da relativa semelhança dos idiomas, sempre foram distintas as culturas dos dois países de forma que era inviável que os portugueses continuassem a ser subjugados por um estilo de gestão que não estava em total sintonia com seus valores e costumes.

Tal como exposto no excelente livro "A Primeira Aldeia Global: como Portugal mudou o mundo" do britânico Martin Page, percebe-se em diversos trechos como Portugal sempre foi diferente do país vizinho ao longo da história. Por exemplo, os lusitanos resistiram tanto às invasões dos romanos, que naquela época a Ibéria foi dividida em duas províncias: "a pacífica Hispânia Citerior, cujas fronteiras coincidiam aproximadamente com as da Espanha atual, e a rebelde Hispânia Ulterior, a oeste, constituída em grande parte pelo território que é, hoje, Portugal".

Os portugueses também desenvolveram um conceito de nacionalidade distinto do existente no país vizinho e também em outros países europeus. Conforme o supracitado autor observou: "ser-se português é um estado de espírito, é a aceitação, em sentido amplo, da cultura nacional, é uma maneira de ser". Assim, foi constantemente possível verificar que: "um grande número de cidadãos de Portugal, cujo único antepassado europeu poderá ter existido há um século ou mais, são detentores de pleno direito de passaporte português, mas nunca visitaram a sua ‘pátria’. São sino-europeus, ou vivem em Macau ou Hong Kong, purghers do Sri Lanka ou indianos que, oriundos de Goa, habitam atualmente em Bombaim".

Este depoimento permite destacar que pessoas com a cultura lusíada não temem a internacionalização por terem uma identidade enraizada a qual lhes permite se integrar em novos locais e se adaptar a novas circunstâncias sem desfigurar valores pessoais e sociais adquiridos de familiares e amigos. Afinal, "O que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? ou o que dará o homem em troca da sua alma?", conforme pensamento bíblico em Mateus XVI, 26.

Outra característica marcante da cultura lusíada é a capacidade de negociação que possibilitou tanto o êxito de inúmeros comerciantes lusitanos quanto o sucesso de diversos acordos políticos pela arte de saber distinguir o "desejável" daquilo que é "possível". Embora pareça ter sido uma humilhação ceder pacificamente ao chamado "Ultimato Britânico" de janeiro de 1890, que impediu Portugal de promover a união territorial de Angola e Moçambique, deve-se lembrar que, oito anos depois, os britânicos (potência militar naquela época) fizeram soldados franceses (então o segundo exército e a segunda marinha do mundo) bater em retirada em Fachoda no Sudão, encerrando um plano francês de construir uma ferrovia que iria ligar o oeste e o leste da África.

Todavia, apesar da total impossibilidade de sobrepujar a poderosa Inglaterra, houve quem conseguisse canalisar a frustração popular com o "Ultimato Britânico" para habilmente debilitar o governo português, sobretudo após um assassinato em ambiente público do Rei D. Carlos I e do príncipe herdeiro D. Luís Filipe em fevereiro de 1908. Embora proclamado rei, o ainda adolescente D.Manuel II não tinha sido preparado para exercer as funções monárquicas e lidar com a agitação social. Assim, dois anos depois, em 5 de outubro de 1910, iniciou a República Portuguesa, que completou cem anos em 5 de outubro de 2010.

Neste ano de 2010, foi noticiado o agravamento da situação financeira em diversos países na área do euro, inclusive em Portugal. A atual crise europeia decorre do desafio em gerir a circulação de uma única moeda em um grande território onde há marcantes diferenças culturais com reflexos na forma da população produzir, consumir e viver. Ainda que notáveis benefícios empresariais fundamentem a existência da área do euro, esta iniciativa decorre da real dificuldade de cada país europeu exercer sozinho uma influência geopolítica e até subsistir de forma independente. Por outro lado, as nações europeias já demonstraram ao longo da história o quanto rejeitam uma intervenção externa que afete tanto a sua identidade quanto os brios patrióticos, tal como exposto acima com Portugal.

Portugal, que já revelou uma enorme capacidade de renovação de maneira que "verga, mas não quebra", agora deverá se adequar às novas circunstâncias. Ademais, o português José Manuel Durão Barroso, no segundo mandato no importantíssimo cargo de Presidente da Comissão Europeia, procura negociar soluções e evitar o alastramento da crise pela Europa. O contágio não favorece nenhum país europeu e nem o mundo, pois como ensina o provérbio português: "Não gozes com o mal do teu vizinho, porque o teu vem a caminho".

Diretor da Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ), sócio da PROBATUS, membro da Academia Luso-Brasileira de Letras.

Texto originalmente publicado na coluna Opinião do Jornal do Commercio, edição de 1 de dezembro de 2010, página A-15



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