O Centro Acadêmico Evandro Lins e Silva do IBMEC-RJ (CAMELS) convidou-me para uma palestra que tive o prazer de proferir em 26 de março de 2009. Com satisfação, apresento uma síntese do que falei sobre a eclosão de crises financeiras, o que incluiu uma avaliação da influência de aspectos emocionais nesses eventos. Deixo também a sugestão de não se abater diante das crises.
São exemplos de crises famosas: o Boom das Tulipas, ocorrido na Holanda em 1637 durante a Guerra dos Trinta Anos, e o Esquema da Companhia Mares do Sul (South Sea), ocorrido em 1720 na Inglaterra. Neste país foram posteriormente registradas novas crises financeiras, tais como: um crash em 1810, relacionado ao substancial acréscimo de exportações inglesas para o Brasil com a abertura dos portos de 1808, e um crash em 1825, associado a uma bolha especulativa iniciada em 1822 com títulos da dívida de países latino-americanos recém independentes (incluindo o Brasil). Outros notáveis eventos históricos com desenlaces marcantes foram sucedidos por crises financeiras, como, por exemplo, a Guerra da Crimeia e a Guerra Franco-Prussiana. Ainda no século XIX, no período de transição da monarquia parlamentarista escravocrata para a república presidencialista com assalariados, ocorreu no Brasil uma bolha especulativa, conhecida como Encilhamento. Aquele crash retardaria o desenvolvimento do mercado de capitais no Brasil.
No século XX, ampliou-se a repercussão das crises financeiras, a começar com a Quebra da Bolsa de Nova York em 1929, que encerrou um boom no mercado de capitais e anos de prosperidade nos EUA, após o êxito daquele país na 1a Guerra Mundial. A grande depressão na década de 1930 pode ser apontada como uma das causas para a corrida armamentista que fomentou a 2a Guerra Mundial. A vitória dos EUA possibilitou àquele país protagonizar a nova ordem financeira mundial estabelecida na Conferência de Bretton Woods em 1944. Acontece que os graves problemas na economia dos EUA, em parte devido à Guerra do Vietnã, contribuíram para encerrar em 1971 o regime cambial de Bretton Woods, o que gerou uma crise financeira, agravada com o 1o Choque do Petróleo em 1973. Já o 2o Choque do Petróleo em 1979 impeliu a elevação das taxas de juros nos países ricos, o que contribuiu para a Crise da Dívida Externa da América Latina, com a moratória do México em 1982 e a forte desvalorização da moeda brasileira no início de 1983. Quatro anos depois, o Brasil deixou de pagar por alguns meses suas obrigações internacionais.
Ainda em 1987, no mês de outubro, houve um ruidoso crash da Bolsa de Nova York, possivelmente causado também por vários programas de computador que simultaneamente dispararam vendas de grandes lotes de ações, o que acirrou o pânico. Fica evidenciada a relevância do "circuit breaker", que interrompe temporariamente as transações numa bolsa de valores a fim de que, com calma, sejam verificados os motivos para uma baixa abrupta do seu índice. Já o término da bolha imobiliária, que se formara na década de 1980 no Japão, contribuiu para a queda progressiva do índice Nikkei ao longo de 1990. O mercado acionário japonês atingiria um nível ainda mais baixo em agosto de 1992. Posteriormente, em setembro de 1992, aflorou uma crise na Europa, sob o então recente impacto da Reunificação Alemã e da extinção da União Soviética. Na Crise do Sistema Monetário Europeu (SME), moedas europeias importantes se desvalorizaram, sendo que George SOROS passou a ser conhecido como "o homem que quebrou o Banco da Inglaterra" ao lucrar com a desvalorização da libra em 1992.
Depois das supracitadas crises nos países ricos, graves contratempos financeiros começaram a simplesmente "pipocar" no mundo em países diferentes, em continentes distintos, e observando certa defasagem no tempo, como no México em dezembro de 1994; no Sudeste Asiático de julho a outubro de 1997; na Coréia do Sul em dezembro de 1997; na Rússia em agosto de 1998; no Brasil em janeiro de 1999; nos EUA em março de 2000 com o estouro da bolha tecnológica (Nasdaq); na Turquia em fevereiro de 2001; na Argentina a partir de dezembro de 2001; e novamente no Brasil em julho de 2002. Finalmente, eclode em setembro de 2008 a atual crise financeira mundial.
A extensa relação acima instiga uma avaliação das características comuns às crises. Em geral, há uma fase de coragem e euforia que alimenta uma bolha especulativa, cujo estouro acarreta uma fase de medo e perplexidade, o que sinalizaria a contribuição de aspectos emocionais na formação e nos desdobramentos das crises. Quem não se deixa envolver pelo comportamento de manada tem mais chances de lucrar tanto na etapa de euforia coletiva quanto no período de fobia que sucede o crash. Usualmente o que dispara um crash é um acontecimento com uma mensagem simbólica implícita (uma "gota d'água"). O momento exato desse evento costuma ser imprevisível, embora, depois, tudo pareça ser explicável racionalmente. Comparado à sua duração, os efeitos adversos do crash perduram e normalmente envolvem: forte retração econômica, maior concentração de renda e afloramento de notícias de fraudes e de manipulações de mercado, além de se responsabilizar o Estado por "algum tipo de omissão". Por outro lado, diante do fato consumado, espera-se que os Governos ou as "Instituições Financeiras Internacionais" tomem providências, assumam uma liderança e ajam como "Fornecedores de Empréstimo de Último Recurso" a fim de injetar liquidez, ressarcir os danos da crise e recuperar a confiança para um novo ciclo de expansão econômica. Constata-se de fato que a formação e o subsequente estouro de bolhas especulativas não resultam apenas de fatos financeiros, mas de anômalas transformações sociais, políticas ou tecnológicas com a contribuição de aspectos psicológicos e sociológicos. Tal estilo de análise estimulo na disciplina "Finanças Internacionais" que leciono com satisfação no Curso de Relações Internacionais do IBMEC-RJ, coordenado com entusiasmo pelo Prof. Dr. José Luiz Niemeyer dos Santos Filho.
Imbuídos dessa visão interdisciplinar, é possível associarmos os primórdios da "Crise do Subprime" à crise de identidade em países líderes no mundo, em especial à conturbada eleição do Presidente George W. Bush em 2000 e à dificuldade dos países da União Europeia para aprovar por consenso uma Constituição. Quando uma população (outrossim um grupo) tem dificuldades para compartilhar interesses e definir expectativas comuns, aumenta o desafio para estabelecer e alcançar objetivos estratégicos maiores. Há inclusive uma atmosfera sóciopolítica propícia para exacerbar o individualismo e o imediatismo com a proliferação da ganância e da especulação. Acirraram esta conjuntura os ataques terroristas aos EUA em 11 de setembro de 2001. Não foram portanto surpreendentes as notícias de "escândalos contábeis" em grandes empresas norte-americanas, como a Enron e a WorldCom, a partir do final de 2001. Na época se postergou uma recessão tanto com menores taxas de juros quanto com concessões de crédito sem o devido rigor. Presumivelmente cresceu também o abuso no emprego de instrumentos financeiros de alto risco, associados a temerárias análises de risco. Era portanto inevitável a eclosão da atual crise de grandes proporções.
Se agora tivermos que lidar com contratempos e frustrações pessoais, lembremos o que atesta a sabedoria popular: "não há mal que sempre dure, nem bem que não se acabe", o que significa ser normal vivenciarmos momentos de crise e prosperidade ao longo de nossas vidas. Com serenidade, podemos até observar que o momento de crise é propício para identificarmos oportunidades que nos levarão à prosperidade. Todavia, esta procura não deve ser feita a esmo, pois como já afirmava Seneca: "Se um homem não sabe qual porto almeja, qualquer vento lhe é favorável".
Diante de tantas incertezas e várias alternativas, é preciso fazer o que se gosta e confiar nos acertos das escolhas e nos rumos da vida, mesmo que num primeiro momento as escolhas não pareçam estar entrelaçadas. Todavia, como ensinou Steve JOBS, presidente da Apple e da Pixair Animation Studios, em um tocante discurso na Universidade de Stanford em 12 de junho de 2005: "Vocês não conseguem conectar os pontos olhando para frente; vocês só podem conectá-los olhando para trás. Logo vocês têm de confiar que os pontos serão conectados de alguma forma no futuro de vocês. Vocês têm de confiar em algo - sua coragem, destino, vida, carma, o que for. Essa abordagem nunca me desapontou, e fez toda a diferença na minha vida".