Comentário de Marcelo Henriques de Brito em 23/maio/2005 sobre medidas anunciadas pela China em maio de 2005
Como há anos a China impede a valorização da sua moeda em relação ao dólar dos EUA, sem que este fato seja percebido com total clareza pela maioria da população, além de prejudicar o mundo, foi publicado no Jornal do Brasil na coluna "Além do Fato:Câmbio (página A18) e no site do Jornal do Brasil em 22/05/2005, o artigo: O ilusório poder de compra da China. Na importante edição impressa de domingo 22/05/2005, o artigo estava acompanhado de uma foto de uma fábrica chinesa com a legenda: "Têxteis chineses tomam mercados em todo o mundo, impulsionados por um câmbio artificialmente desvalorizado".
Depois do referido artigo ter sido enviado para o Jornal do Brasil, foi noticiado que a China poderia permitir a troca da sua moeda por sete moedas, mas mantendo a atual paridade com o dólar norte-americano. Além disso, na sexta-feira, 20 de maio de 2005, foi divulgado que a China aumentou em 400% a tributação sobre têxteis.
Parece uma medida espetacular, porém deve-se observar:
Um aumento de 400% da tributação na moeda local não significa uma elevação dos preços em 400%. O impacto é ainda menor quando se converte o preço final na moeda chinesa (mesmo após a incidência do novo tributo) para dólares dos EUA usando a taxa de câmbio irreal de 8,28.
Aparentemente só aumentaram os tributos sobre têxteis, mas outros produtos da China continuam muito baratos ao converter seu preço para reais, dólares ou euros, como brinquedos e aparelhos eletrônicos, por exemplo.
O Brasil, os EUA e a Europa (e outros países) estavam começando a impor barreiras (inclusive tarifárias) aos produtos chineses, notadamente os têxteis. Uma vez que este procedimento era inevitável, a China foi PRÓ-ATIVA em taxar os seus têxteis para exportação. Este lance foi estratégico, pois, ainda que o preço final expresso numa mesma moeda seja igual e haja uma queda da quantidade comercializada, existe uma diferença entre o país exportador taxar suas exportações e o país importador taxar as importações. No primeiro caso, a arrecadação adicional FICA com o governo do país exportador. Já no segundo caso, a arrecadação VAI para o governo do país importador. Logo, no que o governo chinês de forma pró-ativa aumentou os tributos sobre suas exportações de têxteis, os governos dos outros países foram impedidos de arrecadar mais, o que eles estavam prestes a fazer.
Assim, a tributação majorada de 400% incidindo APENAS sobre os têxteis, é uma medida que tanto reduz a insatisfação internacional quanto posterga a valorização da moeda chinesa em relação ao dólar, ao euro, ao real e às demais moedas no mundo. Pode-se dizer que taxar algumas de suas próprias exportações foi um paliativo para evitar algo pior.
Não se deve esquecer que os chineses tem longa tradição comercial e inventaram o papel moeda (com lastro polêmico e pouco evidente), fato que deslumbrou Marco Polo nas suas viagens no século XIII, quando conviveu com o dirigente chinês Grã-Cã, como exposto na página 379 do livro de minha autoria CRISE E PROSPERIDADE COMERCIAL, FINANCEIRA E POLÍTICA (Probatus, ISBN 85-89585-01-8). Logo, os chineses sabem como agir de forma estratégica usando medidas comerciais, financeiras e políticas.
O arcabouço teórico original que detalha os conceitos no artigo publicado pelo Jornal do Brasil está descrito no citado livro.
Marcelo Henriques de Brito
em 23 de maio de 2005